Depois de décadas de filmes ambientados em sua amada cidade natal - New York - eis que Woody Allen arrumou as malas e partiu
pra Europa. Primeiro foi Londres, retratada nos ótimos e sombrios Mach
Point(2005) e O Sonho de Cassandra (2007), e no chato Scoopn(2006), mas ele
pode dar uma deslizada de vez em quando. Depois na Espanha, com o divertido e
sensual Vicky, Cristina, Barcelona (2008), uma mostra das relações humanas e
tórridas paixões.
E eis que chega a
vez da França. Meia-Noite em Paris é o mais brilhante
trabalho do cineasta, e um dos melhores filme de todos os tempos! A começar
bela belíssima abertura, mostrando os mais belos e conhecidos locais da cidade - ao som da trilha sonora composta pelo francês Stephane Wrembede - que trazem
nostálgicas lembranças para aqueles que conhecem e adoram a magia de Paris, com
ou sem chuva... De cara, já dá pra imaginar o que vem pela frente.
Somos apresentados
a Gil Pender (Owen Wilson, mais conhecido por papéis cômicos), um insípido roteirista
de Hollywood, insatisfeito com os rumos que sua vida tomou, e que se apaixona
pela cidade logo que chega, ao lado de sua noiva, a fútil Inez (Rachel
McAdams) e de seus pais igualmente insuportáveis. Enquanto o casal passeia pelos
pontos turísticos da cidade, surge um antigo amigo de Inez, o pedante e
metido a intelectual Paul (Michael Sheen), acompanhado de sua namorada. Podemos então constatar o desgaste da relação do casal Pender.
Irritado com o
pedantismo de Paul e a indiferença de Inez, e embriagado pela beleza da cidade,
Gil decide passear sozinho, à noite, pelas ruas de Paris, e aí o filme
mostra a que veio, permitindo a Woody Allen abusar de sua criatividade e
genialidade ao nos apresentar seu premiado e espetacular roteiro original,
ganhador do Oscar 2012, que ele nem se deu o trabalho de receber.
Como não na maioria de seus filmes, Allen utiliza o surrealismo para levar Gil de
volta à Paris dos anos 20, década que ele considera a melhor de todas para se viver, na qual passa a viver a
maior e mais inacreditável experiência de sua existência, ao se encontrar com grandes
artistas e intelectuais da época: boêmios, escritores, pintores, bons vivants
que viviam na capital francesa, como Cole Porter, Ernest Hemingway, Scott e Zelda
Fitzgerald, Pablo Picasso e tantos outros, muitos retratados de forma sutil,
quer seja em uma grande obra (Picasso Baigneusse), numa canção (Let’s do It) ou simplesmente num acontecimento, como a atentativa de Zelda em se afogar no Sena, revelando seu comportamento neurótico (a esposa de Scott foi internada por esquizofrenia em
1930).
Inspirado pela
nostalgia da época, Gil decide terminar seu livro, voltando a
sentir o prazer de escrever. O roteiro é bem amarrado entre as noites de Gil
junto aos seus novos amigos e os dias de insatisfação e infeliz
realidade.
Gil conhece a bela
Adriana, amante de Pablo, que já havia tido um relacionamento com Modigliani. A paixão não concretizada transporta ambos aos
anos 1890, La Belle Epoque, que Adriana considera a melhor época de viver. Ao
se encontrarem com os pintores Toulouse-Lautrec e Paul Gaugin, o casal imagina que melhor
seria ter vivido na Renascença...
O filme é uma bela
reflexão sobre como as pessoas nunca estão satisfeitas com suas vidas ou se
sentem deslocadas com o tempo em que vivem. Gil passa a aceitar que o presente
é o que importa, é isso o que temos e é aí onde devemos ser, estar e lidar com
nossas limitações e frustrações.
Frase que o chato
Paul diz a certo momento, e que traduz com perfeição a mensagem do filme: “Nostalgia é negação – negação do doloroso presente - uma noção equivocada de
que uma época, uma era dourada, é melhor do que aquela em que se vive; uma
falha na imaginação romântica das pessoas que acham difícil ocupar-se do
presente”.
Enfim, um filme eterno, para ver e rever mil vezes.


Nenhum comentário:
Postar um comentário