domingo, 19 de agosto de 2012

360 - Um Meirelles contido


Segundo o próprio diretor Fernando Meirelles, 360 é seu filme mais simples, sem temas polêmicos, tratando apenas de situações cotidianas – e por vezes dramáticas – de diversos casais ao redor do mundo.

O título se faz presente no encadeamento de várias histórias paralelas, que fecham um círculo durante seu desenrolar. Alguns o associaram à virada na vida de seus personagens, o que demonstra um certo desconhecimento de trigonometria, pois nesse caso o título seria 180.

Ao contrário do que se possa imaginar, os maiores nomes do elenco - Jude Law, Rachel Weisz e o grande Anthony Hopkins – não são os personagens principais da trama. Na realidade, não há um papel central, e Meirelles democratiza a importância de cada um.

O roteiro é baseado na peça “La Ronda”, suas conexões são, por vezes, desconexas, mas o conjunto agrada. Algumas das histórias fogem do lugar-comum, e a mais surpreendente é o desfecho da situação vivida pela atriz carioca Maria Flor, presa num aeroporto durante uma nevasca e à mercê de um criminoso sexual.

O filme tem méritos e imperfeições, mas talvez pudesse explorar e aprofundar melhor as subtramas mais interessantes, o que não foi possível pelo excesso de dinamismo e mudança de foco, o que, contraditoriamente, acabou por torná-lo um pouco monótono.

domingo, 29 de julho de 2012

Na Terra dos Monges


Mianmar é aquele país em que as mulheres usam aqueles adereços que poderiam perfeitamente ser adotados pelos cearenses: anéis de cobre que alongam o pescoço (como diria o falecido humorista Espanta, nós cearenses nunca usamos esse "acessório", o pescoço).

Bom, após esse comentário politicamente super-hiper-incorreto, vamos falar sério. Até bem pouco tempo, Mianmar chamava-se Birmânia e desde a década de 60 enfrenta turbulências políticas. Somente em 2011 o país voltou a ter um governo civil e esse caos político de meio século transformou-o na nação não-africana (Mianmar fica na Ásia) mais pobre do mundo.

De vez em quando, Mianmar ainda é agitada por manifestações políticas agitadas, muitas vezes lideradas por monges budistas.

Além da Liberdade conta a história real de Suu Kyi (interpretada pela atriz malaia Michele Yeoh), que deixou a Inglaterra e retornou à terra natal para visitar a mãe enferma no final dos anos 80 e acabou permanecendo para lutar pela redemocratização do país.

O renomado diretor Luc Besson – cuja carreira é recheada de roteiros de ação – em determinado momento “abandona” a história de Suu Kyi para centrar o foco do filme no seu marido, Michael Aris (interpretado pelo excelente David Thewlis, que também vive no filme o papel de seu irmão gêmeo). Mike é um altruísta professor universitário, doente terminal, que fica cuidando dos filhos por décadas, enquanto sua mulher tenta cuidar de alguns milhões de compatriotas. Uma das estratégias utilizadas por Aris para salvar sua esposa é conseguir sua indicação para o prêmio Nobel da Paz, no que, aliás, obtém sucesso, em 1991. 

Somente vinte e um anos depois, Suu Kyi conseguiu receber pessoalmente a premiação, em Oslo, já em 2012.

Além da Liberdade vale o ingresso até como fato político-histórico, apesar desse tipo de filme sempre levar a visão pessoal e por vezes desvirtuada de seus produtores.

Aproveitando, o Espaço Itaú, no Casa Park, em Brasília, está em promoção até 16/08/12. Nas primeiras sessões de cada sala, meia-entrada pra todo mundo, inclusive nas salas 3D.





sábado, 30 de junho de 2012

Bicicletando


A belíssima foto publicada no Facebook pelo meu amigo Samuel “Frangosul” Andrighetti mostra o francês Robert Jacquinot recuperando as energias durante a volta da França de 1922. No final, ele foi superado pelo belga Firmin Lambot.

Essa publicação me fez lembrar de uma animação relacionada ao evento, produzida há quase dez anos (2003), que gerou percepções antagônicas. Uns a acharam tediosa, outros, maravilhosa. Estou mais para o segundo time.


Porque, definitivamente, As Bicicletas de Belleville não é um filme convencional. É um desenho pitoresco, criativo, cujos principais personagens são uma velhinha, seu deprimido neto e seu fiel cachorro. Embora não tenha  as características de um filme mudo, ele praticamente não tem diálogos.


A dinâmica é totalmente diferente dos desenhos animados atuais. Ainda bem. Mas, apesar do ritmo lento, não se deve esperar nada parecido com o que assistíamos há décadas. Bicicletas é único, insólito, quase bizarro.

O filme tem algumas abordagens bem sutis, que muitas vezes só podem ser percebidas pelos espectadores mais atentos. É interessante a dicotomia entre o escracho e a delicadeza.

Críticas ao consumismo, à valorização da estética, ao capitalismo, alternam-se às demonstrações de amor extremo da simpática madame Souza na busca incessante pelo neto desaparecido.    

Li em outro post que “... o fio condutor da história é fraco, o desenvolvimento é lento e moroso, as personagens se movem ao sabor das vicissitudes...”. Pode ser. O cinema – como, aliás, quase tudo na vida – tem dessas coisas. Um mesmo fato observado sob duas óticas distintas, por vezes antagônicas.

O título original – Les Triplettes de Belleville – faz referência às trigêmeas idosas, cantoras de cabaré de Belleville que ajudam a vovozinha na tentativa de libertar Champion, seqüestrado durante o Tour de France.

Por ser uma produção franco-canadense, a própria citação a Belleville já é uma crítica bastante subliminar, pois trata-se de uma pequena cidade do Canadá com menos de 50 mil habitantes. No entanto, a Belleville do filme está muito mais para uma Nova Iorque caótica e decadente, que conta, inclusive, com  uma Estátua da Liberdade meio fora de forma, precisando perder uns quilinhos...

Enfim, Bicicletas é um anti-Madagascar. Definitivamente, não é uma animação feita para crianças. Seu humor é sutil, de difícil assimilação. Para assisti-lo, só em DVD, pois há tempos já saiu do circuito. Mas vale a pena.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Perdendo o fôlego

Assistir a vários episódios de uma série na sequência, um atrás do outro, é sempre mais interessante do que ver um a cada semana. Você capta melhor o ritmo, assimila melhor os personagens e a consistência do roteiro. 

Normalmente, séries de humor (Friends, Two and a Half Men, The Big Bang Theory) têm mais fôlego para aguentar várias temporadas. Já drama, ação, suspense, aí fica mais complicado. É como novela. Chega um momento em que a trama central, por melhor que seja, cansa.

The Walking Dead, um dos maiores sucessos da TV mundial, tem uma história que prende a atenção para quem gosta dessa coisa meio trash de zumbis, mortos-vivos, fim do mundo, etc.

Tecnicamente, a qualidade é excelente. Os walkers realmente são convincentes. Mas chega um momento em que é preciso algo mais para segurar a trama. E é aí que entram os dramas pessoais.

Traição, amizade, amor adolescente, perda, superação, ou seja, todos os componentes que a gente vê em qualquer filme classe B que passa nos shoppings da cidade. E, como toda produção comercial, não há uma preocupação com a coerência dos personagens. 

Assim é que, no final da segunda temporada, o bonzinho Rick (que de tão certinho se torna um chato de galocha), de repente passa a ser injustamente questionado por todos, e aceita tudo normalmente.

Vamos ver se a terceira temporada – que deve chegar ainda este ano – traz alguma novidade para The Walking Dead. Caso contrário, duvido que ela sobreviva muito tempo, restanto a seus aficcionados retornarem às histórias em quadrinhos que deram origem à saga.

Com certeza o irmão de Daryl – o tal João-sem-braço que foi abandonado algemado na cobertura de um prédio ainda na primeira temporada – deve reaparecer. Afinal, com a morte de Shane, só restaram chatonildos dentre os sobreviventes da invasão à fazenda do Dr. Hershel.  

sábado, 16 de junho de 2012

Noite Perdida


O fato de Apenas Uma Noite ser dirigido por uma iraniana - a estreante Massy Tadjedin – me deu a ilusão de ver alguma coisa diferente dos modorrentos e repetitivos dramas românticos do cinema americano. Ledo engano. O filme é basicão, previsível, e a única coisa razoável é que todos os seus personagens têm seus defeitos e qualidades, sem maniqueísmos.


Joanna (Keira Knightley, excelente quando interpretou a maluquete de Um Método Perigoso) e Michael (Sam Worthington) envolvem-se, numa mesma noite, em casos extra-conjugais. 

Ao contrário do que possa parecer nos minutos iniciais do filme, não se trata daquela clássica situação do traidor e do traído, e duas histórias paralelas se desenrolam. Mas nada muito original.

O caso entre Michael e Laura (Eva Mendes), além de óbvio, é chatíssimo. Não sei porque, mas Worthington me lembrou muito o Tarcísio Meira de décadas atrás, com aquele rosto congelado e sem expressão, mesmo que o mundo esteja caindo sobre a sua cabeça. Ele até que se sai razoavelmente em filmes de ação, como Avatar ou Fúria de Titãs, mas em Apenas Uma Noite sua atuação foi patética.

Já o outro lado da trama, entre Joanna e Alex, pelo menos tem algum glamour.


Bom, se você não se importa de perder apenas uma noite da sua vida, pode assistir. Mas não vai lhe acrescentar absolutamente nada...




sábado, 9 de junho de 2012

O Jogo Continua


Terminada a segunda temporada de Game of Thrones, vamos a mais uma postagem sobre a série que vem dominando o mundo.

Na primeira temporada, elegi como destaque a rainha-vilã Cersei Lannister, seu irmão-anão  Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen e a pequena Arya Stark. Vou me reposicionar.

Tyrion, vivido pelo ator Peter Dinklage (foto) e Arya até que se mantiveram bem. Daenerys, no entanto, foi uma chatice só. Quando ela aparecia, o tempo inteiro suja, com aquela cara de choro, dava vontade de chorar também. Foram nove episódios de tormento. Somente no décimo ela resolveu fazer alguma coisa. Ela não, seus dragõezinhos.



Quanto a Cersei, manteve-se bela como sempre. Descobri que Lena Headey (foto), a atriz que a interpreta, não é loira, mas ainda assim dá um caldo... De qualquer forma, sua personagem perdeu consistência, oscilando entre a maldade e a submissão, principalmente ao filhote-ditador.

Joffrey, aliás, foi uma das gratas surpresas. Sua transformação de menino-mimado-idiota em reizinho-psicopata-sádico foi uma grande sacada e fez muito bem à trama.


A Andrógina Brienne e, principalmente, o estranho Jaqen H'ghar foram as revelações da temporada. Só não entendi uma coisa: Jaqen fazia o diabo, matava todo mundo, desaparecia, mudava de rosto, era praticamente o Jáspion!!! Mas precisou de uma garotinha para conseguir sair de uma gaiolinha furreca, ficando em dívida com a pequena Stark. Vá entender... 

Bom, mas está todo mundo esperando a terceira temporada, que começa a ser filmada já em julho próximo, e corresponderá apenas à primeira parte do terceiro livro da série Crônicas de Gelo e Fogo. 

Pra quem, como eu, vive se enrolando com o monte de personagens da série, recomendo o link http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_personagens_de_Game_of_Thrones. Sempre que você se perder, volta lá e se localiza.


Bom, mas está todo mundo esperando a terceira temporada, que começa a ser filmada já em julho próximo, e corresponderá apenas à primeira parte do terceiro livro da série Crônicas de Gelo e Fogo. Já tem gente lendo o livro porque não agüenta esperar... 






Carnificina Inglória

A tradução fidedigna de uma peça de teatro, com uma pitada de Polanski. Mesmo  para quem não se preocupa com esses detalhes, isso fica muito claro para quem assiste a Deus da Carnificina.

A história toda se passa entre quatro paredes. Ao contrário do que se possa imaginar, não é um filme monótono, muito graças ao grande elenco. São apenas dois casais, e três atores vencedores do Oscar: Jodie Foster, Kate Winslet e Christoph Waltz, muito bem acompanhados por John C. Reilly. 

Mas o texto da francesa francesa Yasmina Reza e a direção do consagrado (e enrolado) Roman Polanski contribuem para tornar o filme um bom programa de final de semana.

Em um parque de Nova Iorque, duas crianças discutem e uma delas agride a outra com um bastão. Uma tarde, os pais se reúnem para resolver o problema. No início, o clima é cordial, mas os ânimos se acirram e os casais começam a discutir. Na sequência, são os problemas de cada casal que afloram e passam a se alternar com as discussões sobre a educação dos filhos.

A polidez do início dá lugar a agressões de tudo o que é lado, mostrando o lado negro de cada um. Só faltou entrar o próprio Polanski e explicitar suas próprias transgressões, que o levaram à justiça e à prisão.   

O filme alterna comédia e drama, mas seu ponto alto é a interpretação de Jodie Foster e Cristoph Waltz. Aliás, é impossível dissociar a figura do ator austríaco do seu papel em Bastardos Inglórios, onde interpretou o coronel nazista Hans Landa. 

Bom, se você não é daqueles que só vai ao cinema para ver filmes de ação ou comédias românticas, vale ver Deus da Carnificina, mesmo que você gaste alguns neurônios para associar o título à trama...